Seu filha(o) não come a quantidade que você deseja!?
Já tensa a mãe se prepara mais uma vez para dar de comer a seu filho, como ele não quer comer a terceira e quarta colheradas, começa a lançar mão do seu repertório de distrações:
a "técnica do aviãozinho", os brinquedos favoritos, aquela música... OK, vamos colocá-lo em frente à TV - ele se distrai com o desenho preferido e eu lhe "tasco" umas boas colheradas... Mas, agora ele tranca firmemente a boca, revira o rosto, dá tapas na colher... - "Assim não é possível ! Você vai ficar doente !".
Esta situação, mais propicia de um campo de batalha que de uma atividade cotidiana, ilustra com humor a tese central do livro espanhol: "Me hijo no me come" a do pediatra e meu amigo Carlos Gonzálezš.
A inapetência é um problema de equilíbrio entre o que uma criança come e o que sua mãe espera que ele coma. Não devemos obrigá-la. Nem suborná-la, nem usar estimulantes de apetite, muito menos castigá-la. A criança sabe muito bem o quanto necessita.
Muitas mães vivenciam esta fase do crescimento infantil com muita angústia, com sentimento de culpa e como se a recusa fosse algo pessoal, contra você. Uma carga grande de ansiedade que não alivia e agrava esta situação fisiológica (normal), típica de alguns momentos do desenvolvimento físico da criança.
A Dra. Pilar Serrano, médica especialista em Endocrinologia e Nutrição que prefaciou este livro, relata:
"Minha primeira experiência dolorosa com estas normas rígidas de alimentação infantil foi presenciar o suplício de meu irmão menor. Ele tinha quase 2 anos, e eu 3. Estávamos naquela tarde ao cuidado de uma tia, por certo muito carinhosa conosco.
Meu irmão não quis comer a banana que lhe haviam recomendado para o lanche, assim que ela pegou no colo, lhe tapou o nariz e, quando teve que abrir a boca para respirar, lhe introduziu sem compaixão, a banana, e assim continuou, apesar de seu pranto e tentativas de soltar-se, até que a engoliu inteira. Eu percebi como um ato de crueldade, cuja finalidade não entendia. Se estivesse com fome ele a teria comido com prazer, e se não o fazia é porque não tinha fome ! Isto, até uma menina de 3 anos entende."
Seu caso não é o único
Muitas mulheres chegam aos consultórios pediátricos afirmando: "Já sei que há várias mães chatas que dizem que seu filho não come; porém é que o meu, doutor, NÃO COME NADA, você tem que vê-lo..." Estas se equivocam duplamente. Em primeiro lugar, ao pensar que seu filho é o único que não come. Seu filho, sequer é o que menos come. Enganam-se também, porque nenhuma mãe é chata. Realmente estas crianças comem pouco (porque necessitam pouco, como explicaremos mais adiante), e na verdade, estas mulheres estão profunda e legitimamente preocupadas.
Por que gera tanta angústia?
Logicamente, as mulheres estão preocupadas com a saúde dos seus filhos. Porém há algo mais, algo que converte a "anorexia" em um problema muito mais angustiante que a febre, a tosse ou o "catarro no peito". Por um lado, a mãe tende a crer (ou lhe fazem crer) que ela tem a culpa: que não preparou adequadamente a comida, que não soube oferecê-la, que não está educando bem o seu filho... Por outro lado, tende a tomar a recusa alimentar como uma recusa a ela própria. Este sentimento pode ser expresso quando uma mãe afirma: "me recusa... a fruta". Sentem como um ato hostil por parte de seu filho. Algumas mães, chegam a chorar quando dão de comer a seus filhos... Em vez de colocar a questão de forma simples: tem fome X não tem fome, a "luta" por faz-lo comer se converte em uma armadilha: me quer X não me quer.
Para eles dói mais ainda!
As famílias, especialmente as mães, sofrem com os conflitos em torno da comida. Sofrem muito. Como escreveu uma delas: "É horroroso ter medo que chegue a hora da refeição."
Se uma mãe tem pânico, o que dirá seu filho ?!
Por maior que seja sua angústia, recorde sempre que seu filho está sofrendo ainda mais.
Muitos bebês passam muito tempo, às vezes 6 horas do dia "comendo", ou melhor, "brigando" com sua mãe junto a um prato de comida: desjejum - colação - almoço - lanche - jantar - ceia... Eles não sabem por que desta "tortura", ninguém lhes dá razão...
A pessoa que mais ama no mundo, a "única" (não nos esqueçamos do pai!) em que pode confiar, parece ter se voltado contra ele...
Panacéias que circulam - soluções milagrosas
Alguns consideram que as "crianças que não comem" deveriam comer mais, propõem distintas "soluções":
1. A disciplina. Na realidade, a "culpa" tem os pais, que "mal criaram" seu filho, consentindo com os seus caprichos e permitindo que coloque suas "manquinhas de fora".
2. O marketing. A criança não come porque não se soube "vender" o produto. Tem que oferecer o alimento em um ambiente tranqüilo e relaxado, com um pratinho especial decorado, colorido com motivos infantis.
3. A culinária criativa. A criança se chateia pela monotonia da dieta. Há que se criar variados sabores e texturas, e preparar os pratos de forma atrativa: montar um escultura de um gatinho de arroz cozido com orelhas de cenoura, ou decorar com um pimentão vermelho e azeitonas uma cara de urso um purê de batatas.
4. A fisioterapia. Há que se fazer massagens nas bochechas da criança, diariamente desde o nascimento, para "estimular e fortalecer" os músculos da mastigação.
5. O "laissez-faire". A criança não come porque deve afirmar seu espírito de oposição frente a quem o obriga. Devemos deixar de obrigá-lo e então comerá mais.
Nenhuma destas propostas é adequada.
A idéia central do livro de Carlos G. é de não obrigar a criança a comer, e isto não significa que é um "método para abrir o apetite", se não como uma manifestação do nosso amor e respeito pelo nosso filho. Ao deixar de forçá-lo, vai seguir comendo o mesmo, porém sem os sofrimentos e brigas que até então acompanhavam a comida.
Explicações científicas sobre a inapetência fisiológica
Durante o primeiro ano de vida, um bebê cresce 20 cm. e engorda 6 ou 7 kg. (i.épraticamente triplica seu peso e não tornará a fazê-lo até os 10 anos !). Com exceção da vida intra-uterina, nunca uma pessoa crescerá tão rápido como durante o primeiro ano de sua vida.
Calcula-se que nos primeiros 4 meses, os bebês dedicam ao crescimento, 27% do que comem. Entre os 6 e 12 meses, só gastam com o crescimento 5% da sua ingesta; e no 2º ano de vida, apenas 3%.
O rápido crescimento no 1º ano de vida é o motivo porque os bebês comem tanto. Pelo seu pequeno tamanho, e a pouca atividade física que tem, lhes bastariam com muito menos comida, se não estivessem crescendo muito.
Para se ter uma idéia comparativa, se um bebê de 5 kg. Toma uns Ÿ de litro de leite ao dia, uma mulher de 50 - 60 Kg. teria que tomar 10 ou 12 vezes mais, quer dizer, de 7 a 9 litros de leite !
Esta diferença se deve ao fato que a criança está crescendo e você não.
Uma criança de 1 a 6 anos, que cresce l e n t a m e n t e , come menos que um bebê de 6 meses ou um adolescente de 12 anos, que estão em um período de crescimento acelerado.
Por mais comida que lhe dê, é impossível, fazer uma criança de 2 anos cresça tão rápido como uma de 6 meses ou como uma de 15 anos.
Muitos deixam de comer quando completam 1 ano
O motivo desta mudança ao redor de 1 ano é a diminuição da velocidade de crescimento, do ritmo do desenvolvimento físico. Segundo o cálculo dos especialistas, as crianças de 1 ano e meio comem um pouquinho (muito pouco) mais que as de 9 meses. Mas, as mães, fazem um raciocínio aparentemente lógico:
"Se com 1 ano come tanto, com 2 comerá o dobro".
Resultado desta "equação": uma mãe tentando dar o dobro de comida a uma criança que necessita da metade ou menos. O conflito é inevitável e violento.
A quantidade de alimento que cada pessoa necessita é muito variável e algumas crianças comem muito mais ou muito menos que companheiros da mesma idade e tamanho. As expectativas maternas também variam em um amplo espectro.
Ao redor de 1 ano, as crianças atravessam uma fase em que querem comer sozinhas e sentem muito prazer nesta experiência. Claro, comem menos, demoram mais, se sujam e o local em que estão comendo... Se a mãe está disposta a admitir estes pequenos inconvenientes, provavelmente seu filho seguirá comendo por conta própria o resto de sua vida.
Em geral, o apetite vai diminuindo de forma paulatina; porém não poucas vezes um fato externo (uma doença, o começo da creche, o nascimento de um irmão, a separação dos pais...) desencadeia o processo. Acontece o mesmo que com os adultos: as crianças perdem o apetite quando estão doentes.
Seu filho sabe o quanto precisa
Todos os animais deste mundo comem o que necessitam - nossas crias também. Nós adultos, da mesma forma, comemos a quantidade que queremos, sem que ninguém nos regule.
Não obrigue o seu filho(a) a comer. Não o obrigue jamais, por nenhum método, sob nenhuma circunstância, por nenhum motivo.
Confie em seu filha(o)!
Pediatra Marcus Renato de Carvalho
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